Centenário da imigração japonesa

quarta-feira, 18 de junho de 2008


Hoje se comemora o centenário da imigração japonesa no Brasil. Como já dizia Tchekov, ‘canta a tua aldeia e cantarás o mundo’. Assim, para falar da grande miscigenação cultural que ocorreu e homenagear imigrantes e seus descendentes, vou falar de um grupo de pessoas, em especial – a minha família.

Meu avô chegou aqui há mais de 70 anos, vindo de Kumamoto, no Sul do Japão. Primogênito, veio com os pais e os irmãos, fugindo de um Japão cheio de fome e de ímpetos imperialistas. Não era agricultor enquanto viveu lá, mas, aqui, aprendeu 'na marra' a plantar e colher. E logo constituiu família ao lado de uma mocinha de Hokkaido.

Quando meu pai nasceu, a família já vivia em uma fazenda no interior do estado de São Paulo. O começo não foi fácil. Proteína animal não era algo simples de se obter – não foram poucas as vezes em que os irmãos jantaram passarinhos fritos, mortos a pedradas. A terra nova também tinha clima caprichoso – houve um ano em que uma geada arruinou todos os vegetais cultivados, menos as resistentes abóboras kabochá.

E as dificuldades de adaptação, então? Meu pai e seus irmãos foram alfabetizados primeiramente em japonês. Por causa disso, papai foi reprovado em um exame final da 1ª ou da 2ª série, pois não conseguia lembrar como se dizia a cor do céu em português.

Apesar de todos os percalços, eles seguiram em frente. Foram se acostumando aos hábitos locais e se apaixonando pelo país que os recebeu. O arroz japonês grudadinho (gohan) logo ganhou a companhia do feijão (roxinho, que é o que a minha avó mais gosta).

Um dos filhos, por sinal, levou tão a sério esse amor pelo Brasil que se encantou por uma paraense que vivia em São Paulo. Ele já era noivo. A moça também. Mas resolveram enfrentar as diferenças culturais e o olhar torto de suas famílias, que achavam que aquela união não podia dar certo.

Os primeiros anos de casamento não foram moles, mesmo. Tudo que o rapaz tinha de bonito, tinha de reservado. A moça, por sua vez, era uma pimentinha – falante, elétrica, impulsiva. O idioma era outra barreira. Até os 16 anos, ele quase não falava português. Quando casou, aos 24, ainda tropeçava em algumas palavras. O choque foi inevitável. Mas a vontade de ficar juntos fez com que eles superassem as diferenças.

Esse casal teve duas filhas. A mais velha casou-se com um descendente de alemães e é mãe de duas menininhas de olhos puxados (uma de cabelos lisos e louros, a outra de cabelos castanhos, muito cacheados). A mais nova casou-se com um descendente de italianos e é essa que vos escreve.

Essa é a história da minha família. Mas poderia ser de muitas outras famílias, que começaram a se formar quando o primeiro navio japonês aportou em Santos, há exatos 100 anos. A história de uma gente que nunca esquece suas raízes. Mas que escolheu plantá-las bem fundo, aqui no Brasil.

BANZAI!

12 comentários:

ameixa seca disse...

Que linda história Letrícia. Fiquei imaginando o desenrolar na minha cabeça. Dava uma novela. É uma verdadeira miscigenação... eu acho lindo. Belas recordações ;)

Akemi disse...

Concordo com a Ameixa, Lê! Adorei saber um pouco da estória de sua família! Muito emocionante e obrigada por compatilhar conosco estas lembranças! Bjs

yaralucas disse...

Que lindo post, obrigada por dividir com a gente a história de sua família. E obrigada por vocês, japoneses e descendentes plantarem suas raízes aqui no Brasil, são infinitas as coisas boas que voces trouxeram! Beijos procê!

Yara
www.uiaqui.blogger.com.br

Cris disse...

Que linda história!!! Fiquei emocionada de saber suas origens e do amor de seus pais!

Gourmandise disse...

Nossos antepassados passaram por situações bem difíceis (tanto no Japão pós guerra, quanto no Brasil recém chegados). São vitoriosos por superar tudo!
bjoca,
Nina.

Flavinha disse...

Que história linda! Até me emocionei!
Eu só tenho a agradecer aos japoneses e descendentes que cultivam lindas flores que vira-e-mexe estão enfeitando a minha casinha e que fazem deliciosos sushis que fazem parte de muitas comemorações de datas importantes minha e do meu amor!

Beijocas

Aline Holanda disse...

A história da sua família é linda...parabéns!!!

Letrícia disse...

Meninas, obrigada pelos comentários! Queria tanto entender japonês para ouvir todas as histórias que a minha avó tem para contar dos primeiros anos de Brasil...

Beijos!

Marcia disse...

Concordando com todos os comentários. Estas histórias são fascinantes e o oriente me encanta sempre.

Letrícia disse...

Márcia, obrigada! Beijos!

Lílian disse...

Que fofo, adorei !

Letrícia disse...

Obrigada, Lílian :-)
Beijos!

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