Pães corados de vergonha

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Ah, a caprichosa língua portuguesa... no natal, ganhei um livro de pães incrível. Escrito em português de Portugal, ele tem receitas para diversas ocasiões – lanches, almoços, jantares...

Caí de amores por uma receita de pão com colorau. Além de simples (o que é uma beleza, diante das minhas parcas habilidades), parecia muito apetitosa.

Comprei um pacotinho de colorau, separei os ingredientes e mãos à obra. Ou melhor, mãos a OPA.
- “Opa, esse colorau tem textura diferente do que aparece na foto do livro”
- “Opa, a massa está ficando cor-de-rosa”
- “Opa, depois de assados, os pães ficaram alaranjados, diferentes dos que aparecem no livro”

Só então atentei para a dura verdade da língua: o que chamamos de colorau no Brasil é diferente do colorau de Portugal. O daqui é o pozinho do urucum. O de lá é a páprica – ‘taí a Neide, que não me deixa mentir.

Em outras palavras, pessoas, eu ainda não estreei nenhuma receita do meu livro novo (gente, como eu sou deprê – pior é que eu ainda conto para vocês)! De qualquer forma, fiz uns pães alaranjados gostosinhos. Bons para comer com manteiga ou cream cheese depois de um vexame desses.

Pão com colorau
Adaptado do livro Pão & Cª, de Piergiorgio Giorilli.

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O blog velhinho (ou seja, este aqui) será desativado definitivamente em 31/12/2019.

Ingredientes:

1 kg de farinha de trigo
100 g de farinha de centeio
2 tabletes de 15 g de fermento biológico fresco
500 ml de água morna
20 g de sal (pretendo usar menos, da próxima vez)
15 g de colorau (páprica, hein? Não seja como eu :-P)

Modo de preparo:

Fiz assim: dissolvi o fermento na água morninha com um punhado de farinha de trigo e deixei descansar até borbulhar. Enquanto isso, numa tigela, peneirei a farinha e o sal juntos, misturei com o colorau e fiz uma cavidade bem no meio.

No meio da cavidade, despejei o líquido fermentado e fui misturando até conseguir formar uma bola de massa. Transferi a bola para a minha superfície de trabalho e sovei até obter uma massa lisa e elástica (uns 10 minutos).

Deixei a massa descansar coberta com um pano de prato até dobrar de volume. Depois disso, apertei-a para extrair o ar acumulado e dividi-a em porções de uns 50 g (dá quase 30 pãezinhos). Modelei bisnaguinhas e esse formato engraçadinho da foto.

Dispus os pãezinhos em assadeiras untadas e enfarinhadas, pincelei-os com um pouquinho de manteiga derretida, polvilhei a superfície deles com a farinha de centeio e cobri com um pano de prato até que eles dobrassem de volume novamente.

Assei em forno preaquecido a 230ºC por cerca de 18 minutos, com uma assadeira cheia de água na grade inferior do forno.

Deixei esfriar sobre uma grade.

Pão enrolado de pesto

terça-feira, 24 de junho de 2008

Tenho um grupo de amigas que se conhece desde o segundo grau. Juntas, passamos por muitas fases. Primeiro, foram as festas de 15 anos. Depois, as formaturas. Depois, os casamentos. Agora, estamos iniciando a era dos chás de bebê.

Para comemorar a chegada do nosso sobrinho, fizemos um lanche da tarde. Sucos, frutas, gelatina, iogurte. Os pães ficaram por minha conta. Servi o de banana que postei há algum tempo (até atualizei o post falando das impressões sobre ele) e um pão recheado com pesto. Gente, que delícia. Que cheiroso. Fica bom de qualquer jeito - puro, com manteiga, com cream cheese... da próxima vez, vou prová-lo com um bom azeite (acabou tão rápido que não deu tempo).

A receita saiu do blog Straight from the Farm, que há seis meses produziu uma série de posts de cair o queixo, só sobre pães. Fiz metade da receita original (que rende um pão para uma forma de 12x 23 cm), e transcrevo abaixo as quantidades de ingredientes que usei.

Pão de pesto
Adaptado de Jennie, do Straight from the farm, que por sua vez adaptou de “The Big Book of Bread”


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Ingredientes:

270g de farinha de trigo
1 colher (chá) de sal
½ colher (chá) de açúcar refinado
1 colher (chá) de fermento biológico seco instantâneo
25 ml de azeite de oliva
175 ml de água morna
3 colheres (sopa) de molho pesto*

Modo de preparo:


Peneire a farinha e o sal em uma tigela grande. Misture a eles o açúcar e o fermento. Faça um buraco no centro e adicione o óleo e 100 ml da água. Comece a misturar, adicionando aos poucos o restante da água até que se forme uma massa macia (para mim, não foi necessário usar toda a água, devo ter ficado em 150 ml, no total).

Despeje a massa numa superfície de trabalho enfarinhada e sove até que fique lisa e elástica. Forme uma bola com ela e disponha-a numa tigela levemente untada. Cubra com um pano de prato levemente umedecido e deixe crescer até dobrar de volume em um lugar quentinho.

Depois que a massa crescer, extraia o ar dela dando-lhe uns apertões. Abra-a na sua superfície de trabalho com o auxílio de um rolo de massa até formar um retângulo de 30x20 cm. Espalhe o molho pesto sobre a massa e enrole-a a partir do pelo lado mais estreito bem apertadinho, até formar um rocambole (antes de enrolar, ralei um pouco mais de parmesão sobre o molho pesto).

Coloque a massa em uma forma de bolo inglês de 12x23 cm, devidamente untada. Cubra com um pano de prato e deixe crescer até dobrar de volume novamente. Enquanto isso, preaqueça o forno a 220ºC.

Asse o pão por 25 a 30 minutos ou até que ele fique crescido e moreninho. Deixe-o esfriar numa grade antes de servir.

Pão de pesto cortado

Como fiz o pesto:


O pesto foi feito ‘a olho’. Usei aproximadamente 1 xícara de folhas de manjericão frescas, uma colher (sopa) bem cheia de pinólis e ½ dente de alho picado. Acrescentei umas duas ou três colheres (sopa) de azeite, um punhado de queijo parmesão ralado na hora e sal e pimenta-do-reino a gosto.

Centenário da imigração japonesa

quarta-feira, 18 de junho de 2008


Hoje se comemora o centenário da imigração japonesa no Brasil. Como já dizia Tchekov, ‘canta a tua aldeia e cantarás o mundo’. Assim, para falar da grande miscigenação cultural que ocorreu e homenagear imigrantes e seus descendentes, vou falar de um grupo de pessoas, em especial – a minha família.

Meu avô chegou aqui há mais de 70 anos, vindo de Kumamoto, no Sul do Japão. Primogênito, veio com os pais e os irmãos, fugindo de um Japão cheio de fome e de ímpetos imperialistas. Não era agricultor enquanto viveu lá, mas, aqui, aprendeu 'na marra' a plantar e colher. E logo constituiu família ao lado de uma mocinha de Hokkaido.

Quando meu pai nasceu, a família já vivia em uma fazenda no interior do estado de São Paulo. O começo não foi fácil. Proteína animal não era algo simples de se obter – não foram poucas as vezes em que os irmãos jantaram passarinhos fritos, mortos a pedradas. A terra nova também tinha clima caprichoso – houve um ano em que uma geada arruinou todos os vegetais cultivados, menos as resistentes abóboras kabochá.

E as dificuldades de adaptação, então? Meu pai e seus irmãos foram alfabetizados primeiramente em japonês. Por causa disso, papai foi reprovado em um exame final da 1ª ou da 2ª série, pois não conseguia lembrar como se dizia a cor do céu em português.

Apesar de todos os percalços, eles seguiram em frente. Foram se acostumando aos hábitos locais e se apaixonando pelo país que os recebeu. O arroz japonês grudadinho (gohan) logo ganhou a companhia do feijão (roxinho, que é o que a minha avó mais gosta).

Um dos filhos, por sinal, levou tão a sério esse amor pelo Brasil que se encantou por uma paraense que vivia em São Paulo. Ele já era noivo. A moça também. Mas resolveram enfrentar as diferenças culturais e o olhar torto de suas famílias, que achavam que aquela união não podia dar certo.

Os primeiros anos de casamento não foram moles, mesmo. Tudo que o rapaz tinha de bonito, tinha de reservado. A moça, por sua vez, era uma pimentinha – falante, elétrica, impulsiva. O idioma era outra barreira. Até os 16 anos, ele quase não falava português. Quando casou, aos 24, ainda tropeçava em algumas palavras. O choque foi inevitável. Mas a vontade de ficar juntos fez com que eles superassem as diferenças.

Esse casal teve duas filhas. A mais velha casou-se com um descendente de alemães e é mãe de duas menininhas de olhos puxados (uma de cabelos lisos e louros, a outra de cabelos castanhos, muito cacheados). A mais nova casou-se com um descendente de italianos e é essa que vos escreve.

Essa é a história da minha família. Mas poderia ser de muitas outras famílias, que começaram a se formar quando o primeiro navio japonês aportou em Santos, há exatos 100 anos. A história de uma gente que nunca esquece suas raízes. Mas que escolheu plantá-las bem fundo, aqui no Brasil.

BANZAI!

Pão de banana do capoeirão

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Todo mundo que tem um blog de culinária um dia na vida vai fazer um post falando sobre bananas que precisavam ser usadas urgentemente. Este deve ser o meu segundo ou terceiro. Pois bem, eu tinha umas bananas já cruzando o Cabo da Boa Esperança e precisava usá-las de qualquer jeito.

Quem me socorreu foi uma receita copiada de um caderno da mamãe que, por sua vez, a copiou de um livro de receitas da Tia Nastácia (aquela personagem dos livros de Monteiro Lobato). Felizmente, ao contrário da D. Benta, a Tia Nastácia é bem mais precisa com as medidas. Fiz algumas poucas adaptações e transcrevo a receita abaixo.

Pão de banana

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Ingredientes:


3 bananas grandes (usei 5 bananas prata beeem maduras)
2 ovos
3 colheres (sopa) de manteiga amolecida (usei manteiga com sal para dar uma equilibrada na doçura do bolo)
180g de açúcar
300g de farinha de trigo
1 colher (chá) de fermento em pó
1 colher (chá) de bicarbonato de sódio

Modo de preparo:

Unte com manteiga ou margarina uma forma de bolo inglês com 12x23cm. Polvilhe com farinha (ou faça como eu e polvilhe com canela). Aqueça o forno a 180ºC.

Em uma tigela, amasse as bananas com um garfo. Sempre misturando com o garfo, adicione os ovos, a manteiga e o açúcar. Aos poucos, acrescente a farinha de trigo, o fermento e o bicarbonato (peneirei todos os ingredientes secos juntos e misturei-os antes de incorporar à massa). Misture muito bem e passe para a forma reservada.

Leve ao forno por mais ou menos 30 minutos para assar e corar (faça o teste do palito para ter certeza, no meu forno demorou mais tempo do que isso).

Retire do forno, aguarde um tempinho até esfriar e desenforme em um prato.

Observação importante:

Gente, eu preciso confessar. Fiz esse pão dois dias depois do meu aniversário (22 de maio). Minha casa estava cheia de guloseimas e eu preferi congelá-lo inteiro - sem provar! Shame on me. Mas experimentei a massa crua e estava uma delícia. Assim que eu prová-lo, faço um update.

Update:


Gente, que bom que é! É muito fofinho, tem boa umidade e um sabor bem pronunciado de banana. Não é muito doce. A dica de polvilhar a forma com a canela vale a pena, vão por mim. Ah, e passou no crivo da Gabriela, uma exigente mocinha de 1 ano e 9 meses, filha de uma amiga.

Pão de banana cortado

Pitaia

domingo, 8 de junho de 2008

Que vexame. Achei que ia conseguir manter a regularidade das postagens em maio e logo me vi envolvida numa avalanche de trabalho. Quase um mês depois da última vez que passei por aqui, estou de volta.

Nos últimos tempos, não cozinhei muito mais do que o trivial. Mas, visitando os meus primos que têm um sítio em Pereira Barreto, provei uma fruta que adorei!

É a pitaia, ou fruta-dragão. Ela dá num tipo de cacto, nativo da América Central, que pode chegar a 3m de altura (os pés de pitaia do meu primo ainda não eram tão altos). Por mais que isso contrarie a imagem que fazemos dos cactos, as pitaias adoram umidade - quando são irrigadas, dão frutos maiores e mais saborosos.

A polpa é macia, tem sementes pretas e pode ir de uma tonalidade bem branca até o magenta mais escandaloso.

Pitaia no prato!
Pitaia branca

Nas minhas fuçações pela internet, descobri que ela é fonte das vitaminas A e C. E que rende bons sorbets e drinks.

Pitaia no prato!

A pitaia não é uma unanimidade entre as pessoas que já provaram. Muita gente acha sem graça. Pessoalmente, achei muito boa. Lembra assim, de longe, o kiwi (com a diferença que não me dá alergia).

Cookies de aveia, gotas de chocolate e macadâmia

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Olá! Estamos de volta à nossa programação normal!

Aproveito o meu retorno para contar que, aos poucos, estou superando um trauma: os cookies. Com raras exceções, não costumo ter muito sucesso nas fornadas que faço - e por incompetência minha, já que quase sempre uso receitas campeãs da Patrícia e Cinara, que dispensam apresentações.

Por um tempo, relutei em enfrentar os cookies de novo. Mas recobrei a coragem e ataquei outra vez, usando uma receita de um livro que ganhei de natal.

E não é que ficou bom? Os cookies ficaram fofos e muito gostosos. Da próxima vez que os fizer, acho que só vou reduzir um tiquinho a quantidade de açúcar.

Cookies de aveia, chocolate e macadâmia
Receita adaptada do livro "Receitas Caseiras - Biscoitos", de Le Cordon Bleu.

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Ingredientes:

125g de farinha sem fermento
½ colher (chá) de bicarbonato de sódio
½ colher (chá) de fermento em pó
½ colher (chá) de sal
100g de açúcar mascavo escuro
125g de manteiga sem sal
1 ovo, ligeiramente batido
1 colher (chá) de extrato ou essência de baunilha
1 colher (sopa) de leite
160g de flocos de aveia
60g de gotas de chocolate meio amargo
60g de macadâmia torrada e picada grosseiramente

Modo de preparo:


Aqueça o forno a 180°C. Peneire a farinha com o bicarbonato de sódio, o fermento em pó e o sal.

Forme um creme com os açúcares e a manteiga (pode usar a batedeira ou bater à mão, se estiver animada). Adicione o ovo, a baunilha e o leite, batendo bem até obter uma massa lisa. Misture os ingredientes peneirados e mexa bem. Por fim, junte os flocos de aveia, as gotas de chocolate e a macadâmia e misture até incorporá-los.

Com uma colher de sopa, forme bolotas com a massa e coloque-as em assadeiras forradas com papel-manteiga. Deixe uma distância de 5 cm entre elas (a massa espalha bastante). Leve ao forno durante 12 minutos ou até que fiquem moreninhos.

Neste ponto, há uma discordância entre o que eu fiz e o que o livro pedia para fazer. Eu deixei que os cookies descansassem um pouco na assadeira antes de removê-los para a grade onde eles esfriariam. Mas o livro pede que eles sejam levados imediatamente para a grade, assim que saem do forno. Da próxima vez, vou fazer como o livro indica só para saber o que acontece.

Notas finais:

* Hoje, relembrando os meus muitos fracassos, penso se não deveria ter deixado a massa por mais tempo na geladeira – preparei meus cookies em dias muito quentes. Bom, só testando mais para ver.

* A receita original levava raspas de laranja e, no lugar das gotas de chocolate e da macadâmia, 125g de uvas-passas. Imagino que fique bom também (só acho que é muita uva-passa, até para mim, que gosto).

* Essa receita é meio banal, fiquei pensando se valia a pena publicá-la. Depois cheguei à conclusão de que ela tem uma grande qualidade – se ela conseguiu ficar boa comigo, deve ficar boa com qualquer um ;-)

A partida dos que não voltaram

quarta-feira, 30 de abril de 2008


Este mês foi um sufoco. Muito trabalho, muito a estudar, diarista de licença médica... não sobrou tempo ou inspiração para a cozinha e, conseqüentemente, para este espaço.

E agora, quando eu resolvo postar, é para contar que ficarei afastada por mais alguns dias - vou visitar minha avó neste feriado, numa cidadezinha daquelas que você fala o nome e, em seguida, uma cidade de referência (Pereira Barreto, que é perto de Andradina, Araçatuba e Rio Preto).

Antes de sumir de novo, não podia deixar de agradecer o carinho da Mel, do Angu & Pirão, que me indicou para receber o selo "Este blog é um mimo". Adorei!

Aliás, não deixem que conhecer o Angu & Pirão! Além de ser uma cozinheira de mão cheia, a Mel coloca em toda a receita uma história interessante - de um ingrediente, do prato em si... é bom demais.

Agora vou arrumar as malas, pois vamos sair amanhã beeeeem cedo. Até mais!

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